Você é útil, mas é necessário?
- Luís Carlos Pinto

- 11 de mai.
- 2 min de leitura
Atualizado: 16 de mai.

Minha amiga e professora Cris Carvalho me lançou hoje um desafio. “Por que o fim da escala 6x1 não é um debate de viés econômico, mas filosófico?”, indagou. No domingo, à tarde, quando as opções de descanso nos parecem monótonas, porque perdemos nossa conexão com o mundo. Tornamo-nos, segundo Nêgo Bispo (o poeta da contracolonização), em A terra dá, a terra quer, cosmofóbicos.
Estamos preparando nossas crianças para que se comportem com medo do mundo, da diversidade, da brincadeira, do pisar no chão, do fazer para aprender. De tanto nos livrarmos do que consideramos insalubre, perigoso, ofensivo, nos cercamos de proteção viral. Poucos de nós ainda olhamos uma planta no terreiro – cadê o terreiro? – e identificamos nela uma ação curativa.
Aprisionamos nossa vida em cápsulas – nem percebemos. Mas é a partir de uma provocação do mestre quilombola, no livro já citado, que seguimos.
Há uma diferença entre ser útil e ser necessário. O mundo do trabalho nos torna úteis. Somos medidos pela régua da importância. Quanto vale ou quanto custa? Esse é o critério. Quantas horas de trabalho servem para medir minha utilidade?
Transgredir esse pensamento não é fácil. Quantas vezes alguém se lembrou de você no local de trabalho? Poucas ou nenhuma. Pessoas necessárias fazem falta. Precisam estar presentes, não são despedidas porque não cumpriram a tarefa, vamos atrás delas porque elas são indispensáveis.
Neste mundo cosmofóbico, as pessoas são adestradas, atrofiadas, transformadas numa população trabalhadora. Sem tempo livre, há asfixia do imaginário; não há autogestão, conforme Bispo. Autogestão é a habilidade ancestral de nos organizarmos em espaços de confluência e convivência, com decisões orgânicas, a fim de garantir o envolvimento com os territórios.
E talvez seja por isso que o debate sobre a escala 6x1 ultrapasse a economia – ele diz respeito à forma como existimos.





Luís, primeiramente que saudade estava de ler suas reflexões, posicionamentos. Quando li esse texto me recordei de suas aulas tão cheias de vida , personalidade, luta por justiça social, pela sede do saber e até não saber também. E segudamente. Que benção que a Cris te provocou para debruçar sobre essa temática tão importante e desafiadora. A jornada de trabalho não se resume apenas em ultrapassar a hora do expediente, mas arranca do ser humano capacidade de vivenciar sua vida além do trabalho, de viajar, dormir, conversar com familiares e amigos. E até mesmo não ser produtivo que algo que seria tão benéfico e incrível. Porquê, como você mesmo mencionou utilidade é muito diferente de necessidade. E aí quando qu…