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O clube de leitura- o Levante

  • Foto do escritor: Adriana Santana
    Adriana Santana
  • 13 de abr.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 30 de abr.


Adriana Santana - Escritora e professora
Adriana Santana - Escritora e professora

A arte literária (revelação: a literatura é uma arte) não é popular. Bobagem a gente querer colocar a literatura no panteão da música ou da dança, por exemplo. Não, definitivamente, a literatura não é para muitos. Fico feliz com essa realidade? Sou uma escritora. Não fico.

Mas num país onde a maioria da população, negra, só teve acesso a escolas e ao processo de alfabetização no século XX, nada mais óbvio. A Lei nº 1, de 14 de janeiro de 1837, impedia escravizado(a)s e negro(a)s africano(a)s, mesmo liberto(a)s, de frequentarem escolas públicas. Mesmo após a abolição, ex-escravizado(a)s não eram bem visto(a)s em escolas. E quando adentraram, leia-se derrubaram, as portas, encontraram uma escola organizada pela branquitude, com um currículo construído para manter o status quo de uma sociedade racista e excludente.

Em pleno século XX o Brasil era um país de analfabetos. Portanto, a literatura era para poucos. Os brancos, ricos. Então nada mais compreensível, não no sentido de validar o fenômeno, mas de dar-lhe significado, que a literatura no Brasil seja até muito pouco tempo, um prazer reservado às elites.

Os tempos mudaram? De acordo com o Censo 2022 do IBGE, a população negra no Brasil (soma de pretos e pardos) representa a maioria, totalizando aproximadamente 55,5% a 56,7% do(a)s brasileiro(a)s. Continua sendo a maioria. Mas a manutenção das desigualdades educacionais no Brasil também continua. A população branca continua formando o grupo que tem mais acesso e permanência em todos os níveis da Educação. Acrescente-se ainda que, embora a pobreza no Brasil afete desproporcionalmente a população preta e parda, ainda há um contingente significativo de brancos pobres.

Ao pobre cabe trabalhar. O ócio é demonizado. "Arbeit macht frei", que em português significa "O trabalho liberta", não serviu apenas para validar o holocausto e marcar as entradas dos campos de concentração nazistas. É direção segura na exploração capitalista. Afinal, à maioria cabe trabalhar. Ler é um ato desnecessário, ligado ao ócio, à falta do que fazer. Então, ler é algo reservado a “intelectuais” e a literatura considerada um deleite de poucos.

Nesse contexto, nasce o nosso Clube de Leitura O LEVANTE. Um grupo de leitores e leitoras que têm na literatura uma experiência estética, emocional e intelectual intensa! E mais! Um clube de leitura é mais que um grupo de pessoas que se reúnem regularmente para conversar sobre determinado livro. É um espaço de compartilhamento de pensamentos, emoções e experiências sobre aquela leitura. É o contato amoroso com a arte, suas possibilidades, seus encantos.

“Mas só para ler”? Sim. E alguém “só lê”? Ler é um ato revolucionário num país onde a maioria é doutrinada para negar a arte literária como prazer e hábito. Ler é um ato que já implica em reflexões, construção de outras narrativas. É ação! E principalmente quando as obras literárias não são para “ninar os da casa grande, mas, pelo contrário, é para acordá-los dos seus sonos injustos.” Salve, grande Conceição Evaristo, que inclusive faz parte da nossa lista de leituras para 2026.

Para uns/umas, o grupo é “muito político”. Para esse(a)s fica a pergunta. Viver não é político? E ler, não é um ato político?

Para outro(a)s o grupo é “pouco político”. “Talvez se ao invés de ler a gente estivesse fazendo política...” A esse(a)s, proponho: sim, Vandré estava certo. Quem sabe, faz a hora! Mas às vezes a gente pode esperar acontecer. E não é que tem acontecido?

Polêmicas à parte, e polêmicas são sempre boas no universo literário, quem sabe podemos mudar a história e fazer da literatura, em Guanhães, uma arte popular.


 


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