Os cães acima de todos!
- Adão Ferreira

- há 5 dias
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Atualizado: há 2 dias

Aprendi a identificar um tipo psicológico corriqueiro: os que amam os cães sobre todas as coisas. Assim como o mandamento cristão diz para amar o próximo como a ti mesmo, os que gostam de ostentar seu amor pelos animais parecem usar a mesma artimanha religiosa e fanatismo cego. O problema é quando os que amam demais os cães assim o fazem não por amá-los genuinamente, mas por detestar os humanos. Afinal de contas, dificilmente os bichos provocam sentimentos de inveja, ciúmes, raiva e todas as outras hostilidades típicas da convivência humana. E o mais importante nesta observação: os animais não falam verbalmente. E se falassem, contariam os maus tratos que passam? Contariam que existe um monte de canalhas que conseguem se divertir quando eles mordem e atacam pessoas? E quem disse que queremos escutar o outro? Isso quando os que professam seu amor por aí cuidam mal e porcamente dos animais. Que os cães são nossos melhores amigos já sabemos, a questão é que amar demais somente eles revela uma desconfiança gigantesca que temos entre nós mesmos. Pesquisas recentes revelaram que o brasileiro é um dos povos mais desconfiados e isso vem atrapalhando todas as relações sociais.
A situação fica ainda mais complexa quando a vida humana é desprezada como espécie enquanto os cães são alçados ao status de semideuses. Não se trata de propor a extinção ou impedir a livre circulação dos bichos, muito menos de uma oposição entre animais e humanos, mas de um pouco de lucidez contra a estupidez generalizada. Que bom seria se animais e humanos se entendessem. Humanos e humanos também. Mas enquanto esse dia não chega, abaixo a ditadura do falso amor.
Que os animais têm direitos a cuidados e existir é inegável, mas daí levar as últimas consequências que o “melhor amigo do homem” é melhor que o próprio homem enquanto espécie, sem ao menos cuidar direito desses seres, é de uma ignorância e hipocrisia infinita. Que a gente é uma espécie que se odeia fica muito claro nesse tipo de situação, por isso talvez endeusamos tantos os cães e direcionamos nossos afetos a eles. Intuitivamente e contraditoriamente, sabemos que eles não são seres de todo divinos e puros, tanto que usamos a expressão “mundo cão” quando nos convém.
O que salta aos olhos é que parece existir uma indústria do ódio do humano com o humano que engendra aqueles casos limites de pessoas que deixam heranças milionárias para os bichos. Será que está acontecendo um imperialismo americano canino às avessas por aqui quando achamos que os cães merecem mais espaço e atenção do que nós?! Assim como na Índia a vaca é sagrada, os cães estranhamente tiveram o mesmo status no Brasil recentemente, dado o caso do Cão Orelha.
Óbvio que o caso mereceu atenção e esperamos que os envolvidos sejam de fato punidos. Mas e se a mesma potência dos protestos e indignação gerada neste caso fosse direcionada para os outros grandes problemas que enfrentamos, como: desigualdades sociais, escolarização precária, exploração do trabalho, anestesia e emburrecimento coletivo via redes socias, por exemplo? Será que teríamos um mundo melhor para humanos e animais? Talvez. Fica aqui meu texto protesto e minha indignação não seletiva. Contém ironia. Ponto.
Adão Ferreira - jornalista e professor de Filosofia



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