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Chuva de Fossa

  • Foto do escritor: Adão Ferreira
    Adão Ferreira
  • 30 de mar.
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

16 de abril de 2025. Um dia após o aniversário de Leonardo da Vinci. Dia 15 também é o Dia Internacional da Arte. Por que começar uma crônica com acontecimentos tão banais? Talvez porque é exatamente isso que faz de alguém um escritor: encontrar sentido no que parece aleatório.

Mas não. Não é aleatório nem banal. O dia foi escolhido em função do gênio. E mesmo assim, nesse instante, a obra que não me sai da cabeça não é um quadro ou uma escultura, e sim “A Fonte” de Marcel Duchamp e o tempo escorrendo por entre meus dedos. Vou tentar terminar e enviar isso hoje. Vamos.

Que merda! Quem inventou essa história de gênio da arte, da literatura, da crônica... da vida?

Vamos ao cotidiano:

Cheguei do sítio da Ritinha após uma forte chuva, fui buscar babosa para fazer o xarope. Desde ontem planejava tal feito. Receita de um Frei, mesmo que não acredite na igreja católica e no seu controle ideológico. Papo furado.

Hoje não ando acreditando em muita coisa. Talvez nem em Deus. Que mundo meu d...!!! Mesmo assim tomo o xarope de babosa há alguns anos — sempre no inverno. Acredito nos seus efeitos benéficos. Fui apresentado a ele por uma professora de ioga, quando ainda fazia faculdade.

Cheguei à minha cidade nesta noite com as folhas de babosa devidamente escorridas (sem aquele liquido amarelado, chamado aloína), passei no restaurante e comprei uma dose de conhaque para conservar meu remédio natural. Isso tudo depois de desistir de comprar no bar do meu cunhado mal-humorado e grosso.

Finalmente, cheguei em casa.

Toda vez que penso encontrar paz, vem muita merda no caminho — às vezes, literalmente. Pela casa havia restos de fezes. Pelo terceiro ano consecutivo vivemos uma amostra grátis de um filme de terror. It: a coisa feia. Na maioria

das vezes aconteceu o vazamento fétido no verão, agora fomos presenteados no outono.

Minha sobrinha e minha irmã tentavam ajudar, tentando conter o nervosismo da minha mãe enquanto limpavam o ambiente desesperadamente — ou pelo menos se esforçavam para isso. No meu íntimo pensava: é tão libertador não acreditar em nada diante de certas realidades. Diante de umas merdas concretas, assim, não há quem culpar, nem a quem pedir socorro. Muito menos achar quem ou o que faça sentido diante do horror vazado.

Alguém já disse que é melhor dizer do que calar — mesmo que pareça inútil. Tenho acreditado nisso. Mais do que em Deus, talvez. Daí surge a pergunta inevitável: quantas fossas atravessaremos até chegar à derradeira?

Morri, por dentro, sem saber de fato para que viemos e para onde vamos. A arte adianta? Não sei. A arte de quê? A arte de suportar? A arte de transformar o absurdo em beleza? Filosofar adianta?

Só sei que a inspiração vai rareando. Lembro do cheiro — exalava pela casa. O que uma crônica é capaz de dizer nessas situações-limite? Precisaria chegar à fonte do indizível. Descobrir os sentidos da vida. Descobrir o que faz da vida arte. O que faz uma arte tornar arte? Qualquer merda?

Talvez seja isso: tornar arte qualquer coisa que passa pela vida. Ó vida... quanto de merda suportamos? Quanto de verdade aguentamos? Quem tudo suporta é sábio? Meu tempo está acabando, vou fazer uma rápida revisão e enviar. Seja o que a arte quiser.

Eu não sou sábio. Recorro à escrita para acalentar a alma e o corpo. E volto ao início: a arte imita a vida ou a vida limita a arte?


Adão Ferreira - jornalista e professor de Filosofia

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