Não, não é doença
- Luís Carlos Pinto

- 29 de abr.
- 2 min de leitura
Atualizado: 30 de abr.

Não, não é doença. E não se resolve com medicamento.
O que muitas vezes aparece como cansaço extremo, desânimo ou até descrença na escola está longe de ser apenas um problema individual. Há algo mais profundo - uma trama de fatores políticos, econômicos e sociais que atravessam o cotidiano e moldam a forma como vivemos, trabalhamos e ensinamos.
A docência, especialmente na escola pública, sente esse peso. A precarização do trabalho docente não é novidade: excesso de demandas, falta de reconhecimento, condições nem sempre adequadas. Ainda assim, há algo que insiste em permanecer - uma espécie de resistência silenciosa, que se manifesta em pequenos gestos, em aulas que acontecem apesar de tudo, em encontros que fazem sentido.
Foi assim que me deparei, recentemente, com um trabalho simples, mas profundamente potente.
Mais do que repetir discursos prontos ou reproduzir conceitos de forma mecânica, estudantes conseguiram se apropriar de ideias complexas e traduzi-las com clareza impressionante. Não se tratava apenas de teoria - havia ali leitura de mundo, interpretação da realidade, posicionamento.
Entre os elementos apresentados, duas imagens ficaram marcadas.
De um lado, botas desgastadas - símbolo do trabalho exaustivo, do esforço contínuo, da vida que se consome na produção. De outro, uma gaiola cheia de dinheiro - metáfora forte de um sistema que acumula riquezas, mas também aprisiona.
A imagem é incômoda porque é reconhecível.
Enquanto muitos trabalham até o limite, outros acumulam. Enquanto alguns mal conseguem se manter, outros constroem estruturas que concentram aquilo que foi produzido coletivamente. E, nesse processo, há quem já nem se lembre onde deixou suas próprias “botas” - ou seja, sua própria condição de trabalhador.
Esse tipo de reflexão, muitas vezes associado a leituras críticas da sociedade, provoca desconforto. Mas talvez seja justamente esse desconforto que indique sua importância. Pensar sobre desigualdade, exploração e desumanização não é um exercício abstrato — é uma forma de compreender o mundo em que vivemos.
E é aí que a escola revela sua potência.
Porque, mesmo em meio às dificuldades, ela ainda é espaço onde essas leituras podem emergir. Onde jovens podem questionar, interpretar, criar. Onde o pensamento não precisa ser domesticado.
Confesso que, em certos momentos, a docência parece se desgastar - como aquelas botas. O tempo, as exigências e os desafios vão deixando marcas. Mas, de repente, algo acontece.
Um estudante compreende.Outro questiona.Alguém cria uma imagem que diz mais do que muitas palavras.
E, por um instante, é como se as gaiolas se abrissem.
Talvez seja isso que ainda sustenta a esperança: essas pequenas aberturas, essas frestas por onde entram novas possibilidades. Utopias, no sentido mais bonito do termo - não como ilusões distantes, mas como portas que se entreabrem no presente.
E, enquanto elas existirem, a docência continua fazendo sentido.
Luís Carlos Pinto - Professor de Educação Básica - @luispinto.lcp





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