Fora de contexto


Às vezes, olho ao redor e sinto estar vivendo em uma realidade paralela.
Vejo pessoas mergulhadas nas redes sociais, defendendo partidos, repetindo discursos e transformando diferenças em guerras. Enquanto isso, interesses econômicos continuam disputando poder, riqueza e controle.
A sociedade se divide em trincheiras, quase sem perceber quem se beneficia dessa divisão.
E, ainda assim, não me sinto no meio disso tudo.
Não porque esteja acima de ninguém ou tenha encontrado verdades absolutas. Minha própria história me impede de permanecer alienado.
Venho de uma realidade em que faltar dinheiro era condição de existência. O acesso limitado às oportunidades não era estatística, mas experiência e marca. É impossível esquecer aquilo que o corpo aprendeu antes da consciência. Essa marca ainda me acompanha.
Por isso, não consigo me encaixar em narrativas prontas, transformar pensamento em dogma ou política em religião.
Desconfio de toda certeza que exige obediência.
A realidade de quem teve pouco acesso e precisou compreender o mundo pela própria experiência deixa marcas profundas. Talvez por isso eu esteja exaurido. Vejo a exclusão daqueles que lutam ao meu lado. Como corpo gay e não binário, ainda percebo receio nos olhares e gestos, como se minha presença ameaçasse. Isso me afasta de lutas que também são minhas. Não quero competir; quero caminhar ao lado delas.
Estou cansado de uma sociedade que perdeu a capacidade de olhar para si mesma.
E, diante da ameaça às condições que permitem a vida humana no planeta, esse cansaço aumenta.
Às vezes, falta-me expectativa de futuro.
Talvez não esteja ameaçado o planeta, mas o mundo humano: a possibilidade de continuarmos existindo nas condições que tornaram nossa vida possível.
Basta olhar ao redor.
Tudo parece diferente na natureza.
As estações mudaram, e rios, animais, florestas e solos carregam sinais de transformação. Enquanto olhamos para as telas, a própria natureza parece tentar nos alertar.
Não é apenas uma árvore, um animal ou um rio.
É a teia da vida sendo ferida.
Mesmo assim, continuamos discutindo lados, partidos e opiniões.
A natureza não vota. A floresta não escolhe partido. O rio não possui ideologia. Mas todos pagam o preço das nossas escolhas.
Talvez seja isso que mais me exaure: estamos diante de questões maiores que nossas disputas, mas agimos como se tivéssemos todo o tempo do mundo.
Não temos.
Não consigo fechar os olhos, me alienar ou fingir que não vejo.
Minha história me ensinou a desconfiar das aparências. Talvez por isso eu tenha dificuldade em aceitar o mundo como está sendo construído.
Talvez eu esteja fora do contexto. Talvez estar fora seja justamente uma forma de enxergar o que quem está dentro já não percebe.
Prefiro a dúvida que incomoda à certeza que aprisiona. Prefiro encarar a realidade, mesmo quando dói, a aceitar uma versão fabricada para me manter cego.
Não sei se ainda existe o futuro que imaginávamos. Não sei se conseguiremos reconstruir nossa relação com a natureza, com os outros e conosco. Não sei se entenderemos que não somos donos da Terra, mas parte dela.
O que sei é que não consigo fingir que está tudo bem.
Talvez essa seja minha maior solidão:
estar vivo no meu tempo, mas não conseguir me acostumar com o mundo que ele produz.
Talvez o não pertencimento seja apenas a consciência recusando-se a chamar de normal aquilo que nunca deveria ter sido.
A natureza não vota. A floresta não escolhe partido. O rio não possui ideologia. Mas todos pagam o preço das nossas escolhas.
Talvez seja isso que mais me exaure: estamos diante de questões maiores que nossas disputas, mas agimos como se tivéssemos todo o tempo do mundo.
Não temos.
Não consigo fechar os olhos, me alienar ou fingir que não vejo.
Minha história me ensinou a desconfiar das aparências. Talvez por isso eu tenha dificuldade em aceitar o mundo como está sendo construído.
Talvez eu esteja fora do contexto. Talvez estar fora seja justamente uma forma de enxergar o que quem está dentro já não percebe.
Prefiro a dúvida que incomoda à certeza que aprisiona. Prefiro encarar a realidade, mesmo quando dói, a aceitar uma versão fabricada para me manter cego.
Não sei se ainda existe o futuro que imaginávamos. Não sei se conseguiremos reconstruir nossa relação com a natureza, com os outros e conosco. Não sei se entenderemos que não somos donos da Terra, mas parte dela.
O que sei é que não consigo fingir que está tudo bem.
Talvez essa seja minha maior solidão:
estar vivo no meu tempo, mas não conseguir me acostumar com o mundo que ele produz.
Talvez o não pertencimento seja apenas a consciência recusando-se a chamar de normal aquilo que nunca deveria ter sido.








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